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sexta-feira, 8 de maio de 2015

O Bailado


Um casal de jovens abraçados dança em meio a uma sala quase vazia. O menino, na convicção de achar que sabe dançar, conduz a menina. E ela, assume não saber dançar, e deixa estampado em seu rosto. 

Ah! A música... Hoje em dia não se ouve tal preciosidade. Hoje os jovens querem mesmo as músicas mais agitadas, mas nessa época ainda não era assim. Ele era desajeitado e ela era delicada. E o cantor seguia o ritmo de melodia...

Ah! A música... Ela era uma música bem calma, tranquila. Era uma música que parecia entregar os reais sentimentos. Mas, na verdade nada entregara a não ser um menino desajeitado achando que sabia dançar. E uma menina que não escondia que não sabia e se deixava ser conduzida por ele. 

A música acaba. 

O sonho termina.

E cada um desaparece, reaparecendo num outro ponto qualquer, em algum lugar da cidade. Ela se encontra acordando dentro do ônibus. E ele andando por aí. Ela avista o seu ponto de descida. E ele para sem saber para onde ir. É noite. As luzes nos postes pouco iluminam as ruas. A lua? Onde estará? Deve estar no céu, mas escondida por aí. 

Ambos caminham sabe-se lá para onde. Eles seguem. Talvez estivessem sendo guiados pela intuição ou não. Talvez estivessem seguindo para a casa ou para a escola. Quem sabe? Nem mesmo eles sabiam. Apenas seguiam.

Num quarteirão qualquer, depois dela ter descido do ônibus e ele ter perambulado pelas ruas de seu bairro, eles se trombam... Trocam olhares como se já tivessem se conhecido antes, mas essa era a primeira, por assim dizer, trombada. A fala solta quase que uníssona diz a mesma coisa:

- Eu te conheço dos meus sonhos!

Para qualquer pessoa que visse essa cena, acharia que fosse apenas uma paquera. Mas eles não. Eles sabiam, pois haviam se encontrado antes, naquela sala, em meio àquele devaneio quase coletivo.



Joyce Gomes
30/10/2014

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segunda-feira, 14 de abril de 2014

O despertar de uma amizade

Ilustração: Joyce C L Gomes
Eu sou o seu amigo. Você é a minha amiga. Conhecemo-nos num tempo remoto, onde as palavras valiam mais do que o dinheiro. E o dinheiro sequer comprava uma fruta.

Você é meu amigo e eu sou sua amiga, desde tempos em que a falsidade existia, mas não era algo prioritário. Conheço-lhe desde o momento em que a sociedade se preocupava com as pessoas, onde as ditas-cujas sequer pensavam apenas no seu “eu” e a bondade e a amizade predominava.

Você é meu amigo? E eu sou sua amiga? Pois é, tempos modernos, preocupações unilaterais onde você só se importa consigo e eu tentando resgatar a sua amizade.

Você se foi, eu me fui. A amizade cedeu o lugar ao egocentrismo e foi tirar férias em algum lugar bem distante e frio.

Você me conhece? E eu? Eu lhe conheço?

A nossa amizade se foi para algum lugar. Cansou-se de tanto individualismo, egocentrismo e se enterrou ao pé de uma árvore bem distante, irrigada com a água abundante do rio; esperando por novas pessoas de corações puros, preocupando e respeitando um ao outro...

Numa bela tarde, uma pessoa encontrou aquele local. Sentiu-se enternecida e energizada com aquelas vibrações passadas. Esperou por algum tempo para ver se algo mais acontecia naquele lugar.

Mas, nada aconteceu. Cansou-se de esperar e estava quase indo embora até que avistou uma vareta jogada um pouco atrás do caule da árvore. Nesse mesmo instante, teve uma ideia...

Aproximou-se então das margens do rio, cujo local havia um pouco de areia. Escreveu letra por letra até concluir a frase. Depois a olhou por completo e foi embora.

Momentos mais tarde, quase ao anoitecer, apareceu uma rapariga para nadar no rio... Quando colocou um dos pés sob a água, pisou em algo liso e caiu de tal maneira que pode ver aquelas palavras escritas na areia:

“Estive aqui procurando por você, meu amigo, mas você ainda não havia chegado. Procure-me e me encontrarás o mais próximo possível”.

A rapariga ficou encafifada com a frase, olhou ao redor e não encontrou mais nada. Tomou o seu banho e depois se sentou na raiz da árvore. Caiu no sono. Acordou algumas horas depois com o barulho de gritos e latidos.

A voz era de um rapaz, que tinha mais ou menos a sua idade, e os latidos do seu cachorro. O cachorro tentava sair da correnteza do rio. E o rapaz gritava:

“Ei, segura ele, por favor! Ele é o meu melhor amigo!”

A garota conseguiu agarrar o cachorro que passava num trecho do rio quase perto da árvore onde ela estava. Agarrou-o e trouxe para próximo da árvore. O cachorro, de tamanho mediano, estava cansado e deitou-se próximo das escritas. O rapaz se aproximou e viu que a frase ainda estava lá. E disse à garota:

“Eu escrevi essas frases para que o meu cachorro conseguisse sentir o meu cheiro, mas nunca imaginei que encontraria uma amiga aqui, que mesmo não me conhecendo, salvou o meu amigão peludo. Agradeço-lhe pela ajuda!”

E, a partir de então, começaram a conversar e a conversar... Quando se deram conta, já eram bem velhinhos e sempre estiveram um do lado do outro, até mesmo no dia em que o cachorro se foi para o céu, e o seu corpo foi enterrado próximo daquela árvore para que assim ele pudesse, mesmo estando nessa imensidão azulada, auxiliando duas pessoas desiludidas encontrar a verdadeira amizade, enfim o verdadeiro sentimento fraterno.

Eu era o seu amigo e lhe perdi. Desiludido fui embora para um lugar qualquer e lá encontrei um outro alguém...

E eu não era o seu amigo e nem você era a minha amiga. Conhecemo-nos num tempo remoto, onde as palavras já não valiam mais nada e o dinheiro comprava tudo. 

Você não era o meu amigo e nem eu a sua amiga, desde tempos em que a falsidade era prioridade para uma sobrevivência social. Conheci-lhe no momento em que a sociedade se preocupava apenas com o dinheiro e sequer conhecia o amor e a amizade ao próximo.

Você não era meu amigo? E eu não era a sua amiga? As situações não mudaram, mas Alguém colocou-lhe em meu caminho e inspirou a fé de que um dia esse amigo aparecerá no meio da adversidade...

Não éramos amigos, mas passamos a ser. Ficamos próximos, nesse tempo finito. Aproveitando cada minuto que Ele nos concedeu... E fomos além, e muito além nos encontramos e cultivamos aquilo que não foi cultivado!

Você me conhece? E eu? Eu lhe conheço?

Talvez...



Joyce C. L. Gomes
18 de maio de 2013


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sábado, 5 de outubro de 2013

O freguês* tem sempre a razão, por Joyce Gomes


Num desses bate-papos qualquer, deparei-me com o assunto “atendimento ao consumidor”, e coloquei-me a pensar sobre o assunto. E vieram diversos assuntos e histórias decorrentes desse tema. Mas, além de ver o lado do cliente/ freguês, devemos ver a questão do “atendimento” em si que, em muitas vezes, peca.

Já vivi atrás do balcão e também do outro lado dele. Talvez seja por isso que pensei, junto com o Anderson, no nome do blog “Balcão da Arte”. Mas enfim , hoje senti a “fome” de contar sobre algo que me aconteceu há anos atrás...

Meu pai passou numa papelaria próxima daqui para comprar algo e viu uma notícia que achou muito interessante. Ao voltar em casa, comentou o assunto com minha mãe. Ambos me chamaram para conversar e me perguntaram:

- Você quer trabalhar e ter o seu próprio dinheiro para gastar, filha?

Eu, ainda com os meus quatorze anos, pensei por um instante e dei-lhes a resposta no mesmo momento.  Então, voltei com a minha mãe ao tal local para conversar com os donos dessa loja e saber mais detalhes sobre o serviço. E logo em seguida, comecei o atendimento aos “fregueses”, como meu patrão os chamava.

Os dias foram se passando. As experiências foram se acumulando. Um atendimento daqui, outro dali. O patrão exigia contas no papel, enquanto eu já calculava rapidamente de cabeça. A patroa ensinava a arrumar as prateleira, bem como a atender o cliente. O patrão reparava até no chão varrido para ver se encontrava algum objeto minúsculo caído no chão e afirmava quando encontrava:

- Esse clipes no chão é dinheiro jogado fora. Guarde-o aqui nesse pote, pois nós o utilizaremos depois.

Ou senão dizia ao encontrar folhas amassadas:

- Cuidado ao colocar as folhas no seu lugar de volta. Se amassar, não conseguiremos vender. Se não vendermos, não ganhamos e, também, não temos dinheiro para fazer o seu pagamento.

Além disso, eles observavam nosso atendimento, e quando achavam necessário, nos chamavam no canto para dizer:

- Mesmo a gente achando que o freguês está errado, na verdade ele sempre está certo. Ele está sempre certo porque dependemos dele para ganhar o nosso dinheiro para vivermos, porque dependemos dele para manter essa loja e também pagamos o seu salário, e nós não queremos perdê-los!

Durante a volta às aulas, a loja sempre enchia. E eles, enquanto atendiam, também nos observavam, e sempre cobravam que déssemos atenção exclusivamente aquele que chegasse primeiro, independente do que queriam.

Esses ensinamentos aprendidos perduraram por quase 3 anos. Eu saia da escola de manhã, ia para casa almoçar e depois retornava, pois era próximo da escola. Depois comecei a estudar a noite, e colocaram-me para trabalhar de manhã. Depois voltei a estudar de manhã, mas já não dava para trocar o horário de novo na loja. Depois de um ano fora da loja, eles me convidaram para ajudá-los no período de “voltas às aulas” porque precisavam de mais balconista, mas não tinham mais tempo para treinar, e como eu já era bem treinada, podia quebrar o galho deles e ganhar um dinheirinho extra também. Com esse convite carinhoso que recebi, voltei, Voltei e fiquei mais uns dois ou três meses trabalhando com eles.

Enfim, eu vivi essa situação durante anos. Aprendi com meus patrões, muita coisa. Mas além de aprender, também tínhamos nossos momentos de descontração.

Anos mais tarde, eu resolvi fazer uma graduação. Nesse curso estudado, percebi que meus patrões estavam certos ao ensinar sobre o “atendimento individualizado”, o jeito de “lidar com as reclamações de maneira sutil, permitindo com que o cliente ficasse satisfeito e voltasse sempre” e, também, percebi que eles exigiam que “déssemos atenção a nosso cliente”.

 Hoje em dia, vemos muitas reclamações, em diversas esferas, sobre empresas, comércios, espaços culturais, grupos teatrais que pecam no atendimento ao seu cliente.  Talvez, essas pessoas devessem ter trabalhado com meus patrões e estudado sobre o assunto para entender, repensar e analisar a premissa de que o “freguês* tem sempre razão” e que o seu atendimento deve ser melhorado!


*Entende-se por cliente/ freguês pessoas que compram ou adquirem algum serviço, seja ele comprador, frequentador, espectador etc.


Joyce C. L. Gomes
05 de outubro de 2013
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sábado, 25 de maio de 2013

Paisagem oposta



O clima gelado outonal bate a janela. O calor interno choca-se com o frio externo culminando no vapor caloroso e amigável. A brisa bate, mas as janelas estão fechadas. O calor interno, em demasia, começa a impulsionar um sentimento de aprisionamento. O espírito livre pode ser acionado até mesmo em ambientes fechados, só basta querer fazê-lo. Mas o vento, às vezes, até mesmo gelado, nos impulsiona à vida de modo com que nos permite senti-lo bater à face.

A janela continua fechada. O ar que não circula no ambiente, permanece atormentando aquele que almeja voar. Então, já que o seu espírito está aprisionado, ele decide abrir a janela e respirar o ar renovado. E enquanto observa a vizinhança, sente algo bater-lhe nas costas. Instantes mais tarde, perde o equilíbrio e cai sacada a fora.

Antes de chegar ao chão, se depara com uma imagem impressionante, pois vê tudo de ponta cabeça. E ele jamais havia visto a vida por esse ângulo. E, durante o impacto, não sabe se havia alguém o segurando pelas mãos acima ou se alguém amortecia a sua queda abaixo. 

Depois do tombo, percebe que estava tudo invertido e que o tombo ocasionado aconteceu quando estava deitado na cama, vendo a vizinhança pela porta da sacada e quem o segurava, era um urso de pelúcia gigante que estava desajeitado na cama.

E ele se deu conta de que, a vontade de sair era tanta, mesmo estando dentro ou fora, a liberdade mais importante é aquela que encontrou dentro de si ao ver tudo invertido, pois percebeu que tudo é mais belo quando vemos de ângulos diferentes.



Joyce Gomes
25/05/2013

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terça-feira, 22 de maio de 2012

Jogo no Céu

Desenho feito com pastel oleoso, pena e tinta nankin.

A guardiã, sentada no colo de sua Mãe, vê o cometa correr por entre outros planetas. Quando este maratonista se aproxima da base dela, pede-lhe:


- Permita com que minha protegida seja feliz e faça o amado dela mais afortunado ainda!

sábado, 10 de setembro de 2011

Linha Cruzada

Toca o telefone. Alguém atende e diz:

- Emergência... 

Nesse instante, grita uma voz feminina, porém meio distante do fone, no outro lado da linha:



- SOCORRO! SOCORRO! SOCORRO!...


O atendente consegue captar o local exato da ligação e envia a polícia, o bombeiro e o resgate.

Depois de dez minutos, todo o pessoal chega ao local indicado pelo atendente. O policial pega o revolver. O paramédico prepara a maca para levar à possível vitima. O bombeiro fica próximo da válvula da mangueira prevendo uma possível explosão. E curiosos se aproximam para ver o que está realmente acontecendo...
O policial atento a todos os movimentos da redondeza, certifica-se de que se o revolver está carregado e, no instante seguinte, chuta a porta. A porta bate fortemente contra a parede e o guarda entra na casa ligeiramente. 

Ao entrar na residência, se depara com uma moça sentada na frente da televisão com um celular na mão. A jovem estava assustada, porém rapidamente se pronunciou:

- Seu policia... tava liganu pru meu pegueti puquê eli mi mandô uma messagi tão zicada logu quandu abri ozóio... - A moça mostrou o celular para o policial e continuou a falar – daí, grudei o dedu no celulá pra ligá e caiu na mergência na hora que a muié tava fuginu du bandidu na TV...

O policial irritado e incrédulo com a desculpa esfarrapada da garota, deu sinal para os demais entrarem e disse para a garota:

- Pois agora tu vai ligar pro seu namorado lá do Depê!


Joyce C. L. Gomes - 10/09/2011

domingo, 7 de agosto de 2011

Guitarra Flutuante

Era sábado com aquela deliciosa brisa gelada outonal que ecoava nos mais variados lugares. Sábado como qualquer outro para todos, menos para mim. Era mais um dos muitos sábados que uma certa figura me chamava, um certo aparelho que me enlouquecia com apenas uma voz que se encontrava calada. Era um sábado... sábado em que chamava a fala sedutora daquele rapaz pelo telefone. Não era mais um sábado como os outros já ocorridos. Era um sábado, véspera de domingo, véspera dos Dias das Mães... Enfim, era um sábado que me chamava diretamente para conversar com um telefone que não possuía vida própria senão por intermédio de uma voz... Era apenas um sábado outonal que me seduzia com apenas um aparelho que não falava, mas, que seduzia...

Aquele telefone que era frio na aparência, mas que por de trás ardia num derradeiro esplendor que jamais se repetirá. Aquele discurso sedento de atenção conduzia-me na mais inocente malicia para algo totalmente memorável. Aquela voz ganhava minha persistência e dava o mapa de sua mina.

Meu olhar à janela, devia estar reluzente, avistava a quem queria bem, acompanhado de alguém ocultado no telefone. Fora ocultado para não perder a guerra da persistência que na mais pia inocência eu cedia. Fitei-o, contemplei seu olhar clamando por sua presença naquela rua vazia de habitantes. Onde ecoava na esquina mais próxima uma música familiar, uma música que desde bebê eu ouvia...

Arquitetava mil e uma coisas dentro de meu cérebro. Ouvia sem ouvir. Olhava sem olhar. Tímida com aquela presença desconhecida. Com o coração nada ponderado. Indagando a minha presença numa hora nada propicia para uma conversa a dois.

Meus lábios sedentos de água naquela rua deserta, sob um sol decadente... Minha mente demente perguntava sobre minha presença estimulada sabe-se lá pelo quê...

A inocência ao ouvir sobre a atual pequena, a nova namorada, fez-me crer que era hora de abandonar o navio. Procurar ganhar a rua, ganhar a hora atrasada do serviço. Mas estátua eu era! Observava aquele olhar empoleirado no muro, admirava aquele dedinho mindinho que era o mais gigante no meu coração. Contemplava aquele jeito encantador. Circulava meu olhar por seu corpo para mais rápido voltar naquela boca que, um dia quis muito beijar com ardente paixão.

Sua mente planejava alguma coisa que eu desconhecia. Entrou em sua casa. Eu fugia devagar. O seu amigo avisou da minha fuga. Escondi. Telefonou. Esperei escondida indagando a sua volta. Seu amigo avisava da minha partida, enquanto eu caminhava lentamente esperando à volta do meu tesouro que não tardou a aparecer.

Sua indagação sobre minha saída fugitiva questionava com aquele meu anel entre seus dedos. Extorquia-me um beijo que tanto quis dar, cobrava um beijo que eu não sabia como ganhar. Estranha era aquela sensação mas, mais doce era a idéia que me cativava. Pressionava-me com aquela argolinha entre os dedos pedindo apenas um beijo em sua face, um beijo mais formal. Mesmo queimando na minha mente a resposta; ainda, hesitante, estava.

Procurava uma distração para nada responder. Ganhava tempo para algo que não sabia como entregar. Seus lábios secos assim como os meus, ainda indagavam uma única atitude ou afirmação. Era apenas um beijo formal, nada mais. Hesitei tanto devido apenas um beijo amigável. Enquanto se afastava com aquele objeto na mão... Seria um beijo nada promissor...

Sua boca pronunciava, apenas, um beijo no rosto. Já estava eu confiante ma decisão. Sua Mao mostra o anel. Aproximava do seu corpo para beijar-lhe a face. Não sei qual química me afetou, qual lhe afetou, mas... Abri os meus olhos e não acreditei no que havia feito. Parecia ser um sonho, mas, não era... Primeiro beijo... Primeiro tímido toque labial...

Aquela mão com dedos calejados acompanhado de um tom tão agradável puxava-me contra seu corpo, encostava-se à parede... Outro toque.

Meu compromisso já bem atrasado me chamava. Seu amigo saía de dentro daquele casulo. Ganhava eu, aquela rua, para minutos mais tarde levar sermão do patrão.

Mas eu não andava, flutuava! Meu primeiro beijo, primeiro beijo com... Escorria a tarde, mas meu pensamento era fixo: era sua guitarra e não sabia!

Era sábado, nada mais do que um sábado véspera de Domingo, véspera do Dia das Mães. Véspera do Dia das Mães, mas quem ganhou o presente foi a filha...

Joyce C. L. Gomes
09 – Maio - 1998

Partida na TV

Já está na hora, vem me ligar! Pronto, foi difícil? Fica aqui, não quer me ver? Ah! Você vai apagar o fogo e já volta? Claro, agora vai me assistir!

Este não, o próximo, por favor! Como sabe que é o meu favorito? Ih! Está no intervalo, mas falta pouco para recomeçar.

O principal está voltando... Notou alguma diferença?

Está vendo aquela coisa redonda que rola no gramado? Sim, a própria... Vou lhe contar um segredo: ela é a minha paixão. Não diga nada para ninguém, pois ela é tímida. Já esta acanhada com aquele par de chuteiras que a domina.

Olha como gritam, pulam... veja, até mesmo a torcida do time adversário!

Passa um, dribla outro e mata no peito: Goooool!

A metade está feliz enquanto a  outra, inconformada.

Não se desespere a final do jogo é na semana que vem...

Joyce C. L. Gomes
05 – Abril - 2002

sábado, 6 de agosto de 2011

O Encontro Marcado

No céu, a lua acompanhada das estrelas, eram os ingredientes daquela noite tranquila e ainda serena. Uma noite de verão, uma noite de diversão para uma doce rapariga que encontrara a solidão de um amor não correspondido.

A brisa batia sobre sua face delicada feição, uma brisa cheia de mistérios. Era uma noite infeliz como todas as anteriores, embora ainda prometesse inesperadas surpresas.

Esta rapariga era abordada por suas amigas para que saísse de sua toca e colocasse em prática o esquecimento de alguém que não merecia sua compaixão, devia esquecer a desilusão que havia sofrido há algum tempo atrás.

Iam encontrar num bar requintado para terem algumas horas de diversão.

Logo na porta, o segurança observava atentamente os clientes que iam chegando. Ana Carolina teve a sua atenção presa no ambiente novo desde o momento que colocou o seu pé por lá. Impressionada com a beleza e com uma certa elegância apreciava com olhar aquelas mesas arrumadas, o balcão, com um certo número de pessoas conversando, os garçons procurando alguém para atender, um rapaz tocando seu violão acompanhado de outro, que era o vocal...

- Este bar é muito interessante! Há uma harmonia que jamais senti antes noutro lugar: é tranqüilo, arejado, boa música, pessoas agradáveis...

- Isso porque aqui é somente uma parte, há ainda o outro lado. Lá o som é mais dinâmico, e o pessoal que não namora prefere lá, que aqui. Aqui é considerado o lado dos casais, enquanto lá, dos descompromissados. Vamos ficar aqui por alguns minutos, esperando pela Daniela. Pelo menos acho que ela deva vir... – dizia Duda.

- Não tem problema, daqui a pouco vamos...

Próximas ao balcão esperaram por alguns minutos. O movimento estava aumentando, os garçons, praticamente corriam, até que chegou Daniela.

Os corredores entre as mesas pareciam, cada vez mais, estarem menores. Subiram uma pequena rampa para que trocassem de ambiente. As pessoas estavam próximas da banda que, no momento descansava.

Com todo aquele povo situado mais ao centro, Ana Carolina estava ficando tonta; aquela era a primeira vez, depois de meses trancafiada em sua própria casa. Trombava com um, com outro e sempre pedindo desculpas.

Havia uma mesa vaga próxima da tal banda que retornara há pouco para continuar animando a galera.

- Vamos ficar naquela mesa? – perguntava Ana Carolina.

- Por que não? Ficar pertinho daquele tecladista maravilhoso! – respondia Daniela. – Bom, vão para lá, enquanto eu vou no balcão pegar uma caipirinha...

Aproximaram-se da mesa até que, um dos componentes olhava fixamente para Ana Carolina, mas ela ainda não havia prestado atenção naquele rapaz admirando e possuindo-a com seu olhar.

Sentaram-se e puseram-se a olhar ao redor.

O rapaz permanecia admirando-a com um ar de ternura, com satisfação, com todo carinho que conseguiam perceber no seu gesto arrogante e egoísta de meses atrás. Fitava-a com o olhar de arrependimento e saudade. Apreciava-a com o amor que descobrira, desde o momento que eles brigaram e da maneira mais absurda, ela afirmava indiretamente que ele fora o seu único amor.

Mas o olhar de Ana Carolina ainda não chegara na direção daquele rapaz egoísta, que não se importara com ninguém antes.

A pausa era total, mas Ana Carolina não percebera o motivo. Todos olhavam em direção a banda atentos aos recados que o vocalista dava sobre a sua programação para aquela semana lotada de eventos.

Após um minuto de silêncio Fernando tomou o microfone da mão do seu amigo e disparou a falar:

- Hoje estou com meu coração apertado, quer dizer, faz meses, desde que a garota que amava disse-me algumas verdades. Desde o começo pensava ser eu o certo e não percebi a sua necessidade, sua sinceridade, seu amor por mim. Descobri no momento que a perdi de vez. Não a procurei para tentar consertar tudo de errado que aconteceu. E agora ao vê-la na minha frente mais bonita do que antes, queria pedir mil desculpas e dizer-lhe que nunca a esqueci e sempre a amei, desde o dia que a vi encantadoramente conversando com suas amigas na escola. E como hoje estamos todos aqui, queria que vocês fossem meus testemunhos e certificassem a minha única decisão...

Neste momento ela olhava espantosamente para aquele guitarrista de meia tigela que um dia a ignorou, mas que em muitos outros a fez a mulher mais feliz do mundo. Abriu um enorme sorriso e continuava prestando atenção em cada palavra pronunciada por ele.

- ... Carol, não quero desperdiçar mais nenhum momento, nenhum segundo... Quer se casar comigo? – e tirou de dentro do seu bolso um par de alianças...

Ela olhou para suas amigas e enxergava através daqueles olhares cruzados que tudo fora um plano, um romântico plano...

- Nunca iria adivinhar que tudo isso fosse combinado! Fui traída pelas minhas próprias amigas... Mas depois de tanto tempo ter me conformado de tê-lo perdido, decidida a desistir de te amar, e sem ter conseguido... Eu quero muito continuar te amando, quero muito me casar com você!

Fernando pegou-a pela mão, colocou o anel no seu dedo direito. Puxou-a para que levantasse e deu-lhe um ardente beijo como jamais fizera antes.

Todos aplaudiram e se deliciaram naquele romance não acabado.

De novo com a felicidade estampada em seu rosto, pensativa, mas alegre, esperava seu noivo para acompanhá-la à sua casa, pois queria aproveitar todos os minutos que restavam ao lado dele...



Joyce C. L. Gomes
16 – Junho – 2000

Out of the window

Chris stared out of the window waiting for the phone to ring. He was peering at his neighborhood and watching a bird flying in the sky.

He was wondering if his girlfriend would call him back after the blow out that they had had. He longed to say they started the relationship with the wrong foot and he wanted to fix it before the problem started getting worse.

As the bird was flying so high, he longed to feel the freedom running inside of his boiling blood which started to claim for the most important thing in his life.

Although he was very confused, he did not know which way he should actually choose – keep in love with his girlfriend or keep feeling this sense of freedom – because both ways pointed to different directions and he had to choose one.

Out of the blue, he realized that, that day turned to night and there was nothing to look at anymore except for those bright starts shining in the sky. And Chris stared out of the window waiting for the phone to ring…



Joyce Gomes 
21 - Março - 2008

Devaneio Juvenil


O passado e o futuro, embora distantes, brincam muito com o presente. A brisa está lá, a estrela está aqui, a lua padece no céu enquanto o infatigável sol labuta na mais triste tarde de outono.

O movimento inconstante dos “seres humanos” torna a vista tão cansada, os lamentáveis sentimentos e o conflito entre o ser e o ter, querer e o não poder brigam insistentemente. O coração quer se rebelar, porém a consciência o detém no mais sombrio esconderijo. 

A fresta da janela já não absorve mais nada. O papo flui constantemente sobre o nada. O vazio se torna tão constante quanto à escuridão do buraco mais fundo onde já se pode chegar. A música ecoa... E percorre um caminho tão longo, mas fica estagnada num ponto próximo, junto de alguém que ora sorri das aflições da adolescência e noutras chora por ser incompreendido. E os demais que não o vêem, sequer se importam com aquilo que circunda aquela mente que é quase tão vazia de experiências.

A canção, mesmo sendo incompreensível, soa tão melancolicamente àquele perdido. O som vai se perdendo e o pensamento ganha ares que os olhos desejam mostrar. O caminho entrelaçado entre o pensamento e os olhos calmamente se encaixam confundindo como uma cadeia genética que ainda não surgiu.

Aqueles olhos brilham ora de confusão, ora de paixão, mas o jovem permanece admirando...

Finalmente o sinal soa e todos saem em disparada à suas casas.


Joyce C. L. Gomes
17 - abril - 2006

Essência mágica


A beira-mar mandava sua brisa inquietante bater à face. Jovens tão mais velhos que um jovem, beijando a boca de um uísque. O negrume da noite trazia o horizonte para o desembocar da areia perante a tranqüilidade da onda. A trilha repleta de jovens que se divertiam em grande escala. Um caminho de areia e em suas bordas árvores típicas de praia. A Lua e suas companheiras brilhavam na calada da noite abarrotando os seus ouvidos com vozes tagarelas e espirituosas. Abençoavam jovens enamorados que se entretinham fisicamente. O ruído daquele barato presenteava, com o esplendor, a vida. A agitação imperava naquela madrugada. A magia, em Riviera, enfeitiçava a todos enquanto distraía a mais sorridente Mãe que presente estava... 


Joyce Gomes 
01- Outubro - 2002




O despertar de um novo dia

A claridade já aparecia por entre os vãos da janela. O despertador despertava num gritar ensurdecedor. Porém, os olhos que presente ali estavam, se encontravam perdidos num dos sonos mais profundos que jamais havia sido presenciado. A mão ecoava pelos ares para acertar o minúsculo botão que se escondia na cômoda empacotada de papéis. Tal escandaloso já indicava seis horas da manhã... Sentiria enraivedecido com a bofetada que uma mão desnorteada lhe acertara, caso tivesse sentimentos próprios, mas não, simplesmente aquietou-se, tornando o ambiento tranquilo novamente.

A mão certeira voltava-se ao seu leito. Uma jovem moça se debruçava como que se dissesse que havia se ludibriado com o mais belo dos belos sonhos. Seu rosto, ainda adormecido, sorria delicada e desconcertadamente. O relógio já abatido por tal mão se pronunciava novamente. E a mão, agora mais acordada do que anteriormente, acertara-o logo de primeira. O gritar do relógio agora dava espaço ao rangido da porta que se entreabrira quase que de imediato. Uma voz ecoara para dentro do quarto, porém, incompreensível tal como o cantarolar das sereias se assim existissem. A voz, mais uma vez se pronunciou, iluminou o restante do quarto da moça que tateava o chão com os pés a procura de seus chinelos e saiu de seu quarto, rumo a mais um devaneio real.


Joyce C. L. Gomes
26 - Janeiro - 2008